Autocuidado Real: Muito Além dos Banhos de Espuma e das Velas Aromáticas
O autocuidado foi sequestrado pela cultura de consumo. O autocuidado real não se compra. É o conjunto de práticas que te permites fazer com regularidade para te manteres bem.
O autocuidado tornou-se uma das palavras mais usadas e mais esvaziadas da saúde mental contemporânea. A versão que se popularizou nas redes sociais é uma estética: banhos de espuma com velas, máscaras de rosto, compras de roupa confortável, jantares caros. Uma versão de autocuidado que requer dinheiro, tempo, e que frequentemente é mais sobre aparência do que sobre bem-estar real.
Isto não é autocuidado. É consumo com branding de autocuidado.
O autocuidado real é simultaneamente mais simples e mais difícil: são as práticas básicas que te permites fazer com regularidade para te manteres funcionalmente bem, mesmo quando não apetece, mesmo quando estás ocupado, mesmo quando parece um luxo que não mereces.
De onde vem a confusão
O autocuidado como conceito clínico surgiu na enfermagem e na saúde pública: era o conjunto de ações que as pessoas faziam para manter a sua própria saúde. Não tem nada de glamoroso nem de consumista.
Na sua versão clínica, o autocuidado inclui: dormir suficientemente, alimentar-se de forma razoável, mover o corpo, ter conexões sociais de qualidade, gerir o stress de forma que não seja acumulação indefinida, e procurar ajuda quando precisas.
Estas práticas não vendem produtos. Por isso a indústria do bem-estar construiu uma versão alternativa que vende muita coisa e que usa a linguagem do autocuidado para o fazer.
O que o autocuidado real parece na prática
É frequentemente pouco inspirador
Fazer a refeição mesmo quando não tens vontade de cozinhar. Sair para caminhar 15 minutos mesmo com chuva. Deitar à mesma hora mesmo quando terias coisas para fazer. Responder a uma mensagem de um amigo mesmo quando preferia estar quieto.
Nenhum destes atos tem boa fotografia para o Instagram. Todos eles têm impacto real no bem-estar.
É o que mantém o sistema a funcionar, não o que o torna extraordinário
O autocuidado não é o que te faz sentir no teu melhor. É o que te mantém acima do mínimo viável. É a diferença entre funcionar razoavelmente bem e estar em colapso.
Inclui dizer não como forma de cuidado
Recusar um compromisso que excede a tua capacidade atual. Não responder a emails às 22h. Pedir ajuda em vez de tentar fazer tudo sozinho. Estes atos de proteção de recursos são autocuidado, mesmo que não se pareçam com isso.
É ajustado à realidade, não ao ideal
O autocuidado perfeito que nunca acontece porque requer condições que não tens é menos útil do que o autocuidado imperfeito que acontece regularmente dentro das condições que tens. 10 minutos de caminhada é melhor que os 30 minutos que não tens. Uma refeição razoável é melhor que a refeição ideal que não preparaste.
O autocuidado como ato político
Audre Lorde, ativista e escritora americana, escreveu: "Cuidar de mim mesmo não é autoindulgência, é autopreservação, e isso é um ato de guerra política." Esta frase surgiu num contexto específico de resistência de mulheres negras num sistema que as pretendia destruir.
Mas contém uma verdade mais ampla: numa cultura que glorifica a exaustão e que trata o cuidado de si mesmo como luxo ou egoísmo, manter-se bem é um ato de resistência. Não de vaidade. De sobrevivência.
Próximo passo
Escolhe o teu próximo passo para cuidar da tua saúde mental.
A AcalmaMe não substitui acompanhamento profissional de saúde mental. Em caso de crise, contacta a Linha de Apoio à Saúde Mental: 808 24 24 24 (gratuita, disponível 24 horas).